domingo, abril 25, 2010

comer bem: nem de menos, nem de mais

texto de sônia hirsch(...) Comer demais é uma das maiores burrices da vida, além de ser também um desperdício: sobrecarrega a digestão, entorpece a mente, engorda, prende o intestino, vira doença. Às vezes é vício – nem existe propriamente fome, mas uma enorme, imensa, incontrolável vontade de comer. Às vezes é apenas desejo de viver coisas gostosas, como a sensação do chocolate derretendo na boca ou o croc croc das batatas fritas, uma após a outra, até o pacote acabar. E a indústria de alimentos, ou antialimentos, não tem dó: junta o chocolate com um recheio crocante que só começa a satisfazer depois de se comer vários pedacinhos – cinco, seis, dez – e por que não a caixinha toda?
(...)
Em busca de iluminação no assunto, leio o capítulo sobre temperança no Pequeno Tratado das Grandes Virtudes, do filósofo contemporâneo André Comte-Sponville (ed. Martins Fontes). Começa bem, dizendo que não se trata de não desfrutar, nem de desfrutar o menos possível, já que isso não seria virtude, mas tristeza; não temperança, mas ascetismo; não moderação, mas impotência. Trata-se de desfrutar melhor. “A temperança, que é a moderação nos desejos sensuais, é também a garantia de um desfrutar mais puro ou mais pleno. É um gosto esclarecido, dominado, cultivado”. Em vez de escravos, passamos a ser senhores de nossos prazeres, diz ele. E quem desfruta com liberdade também desfruta da própria liberdade, ao passo que o intemperante é prisioneiro de seus desejos ou hábitos, de sua força ou sua fraqueza.

Cita um grande pensador do século 17, Baruch Spinoza, para quem é próprio dos sábios usar as coisas da natureza e ter nisso o maior prazer possível, mas sem chegar ao fastio, o que não é mais ter prazer. E coloca a temperança como um meio para a independência, assim como esta é um meio para a felicidade: “Ser temperante é poder contentar-se com pouco. Mas não é o pouco que importa: é o poder, e é o contentamento”.

Aprendo que não é o corpo que é insaciável. A falta de limites do desejo é que nos condena à insatisfação, à falta, à infelicidade, como uma doença da imaginação. Se tivermos sonhos maiores que a barriga, vamos censurá-la pela sua pequenez, diz Sponville. Em vez disso, os sábios estabelecem limites. Minha mãe, que era sábia, dizia: Do bom, pouco.

Fica então a proposta na minha cabeça: unir dieta e liberdade, bons hábitos e grandes prazeres, o útil e o agradável. E que os santos comilões e beberrões me ajudem.

2 comentários:

Ana disse...

Muito bons os teus posts!
Belas reflexões e indicações de leitura...
Valeu!
Beijooo!

Kd o link para o blog da Elisa? Vc citou e eu fiquei curiosa!

bel disse...

gracias pela visita, querida!
aqui vai o link para o blog da elisa:
http://baudetrapinhos.blogspot.com/
vou adicionar no post!
beijos!

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